Uma morte, má organização e um empate sem brilho ofuscam a reabertura do Estádio Azteca
A seleção mexicana inaugurou o Estádio Azteca — agora chamado Estadio Banorte por razões de patrocínio, em referência a um banco mexicano —, mas não conseguiu encerrar a ocasião da forma como esperavam os torcedores presentes, os jogadores e a comissão técnica.
Em um dia histórico para o futebol mexicano, o Estádio Azteca foi reaberto após 22 meses de reformas. O palco da Copa do Mundo de 2026 se tornará o primeiro estádio da história a sediar três Mundiais. O Azteca receberá o jogo de abertura em 11 de junho, quando o México enfrentará a África do Sul em uma celebração que promete ser inesquecível.
Mas, voltando à noite passada, para além do empate sem gols do México com Portugal em um jogo sem emoção — que os mexicanos poderiam até ter perdido, já que Portugal criou as melhores chances — a torcida saiu frustrada.
Por dentro, o Azteca está absolutamente deslumbrante. A reforma é visível nos assentos, na sala de imprensa e no gramado, que apresenta nível de excelência, além dos telões, da iluminação em LED e dos painéis de 360 graus, que colocam o estádio em padrão de Copa do Mundo. Ao todo, foram investidos US$ 300 milhões, mas, por fora, as obras ainda continuam e não parece haver muitas mudanças em relação ao que existia antes.
O investimento foi significativo, mas talvez pudesse ter sido maior na melhoria das áreas de estacionamento. Ainda há partes do estádio em que a estrutura parece desgastada. Lembro que, há alguns anos, quando essa reforma foi planejada, falava-se na construção de um centro comercial e na revitalização de toda a região de Santa Úrsula Coapa, considerada um bairro de classe média baixa no México.
Também houve menções a melhorias na iluminação, nas ciclovias e no desenvolvimento urbano em geral, mas, no fim, a reforma parece ter se concentrado principalmente no interior do estádio.
Como mencionado, o México não conseguiu marcar contra Portugal, e os torcedores expressaram sua frustração. Eles tiveram de conter a comemoração de gols — e como descontaram isso? Com vaias aos jogadores e com o infame grito homofóbico dirigido ao goleiro adversário, já conhecido mundialmente.
O México já foi punido várias vezes na Copa Ouro e na Liga das Nações da Concacaf, e a Federação Mexicana de Futebol recebeu multas, mas os torcedores seguem encontrando formas de expressar sua revolta. Na noite passada, apesar da tentativa do estádio de abafar o canto com música e som nos alto-falantes, não conseguiu. A frustração da torcida era evidente, e ela não pareceu se importar com a presença do presidente da FIFA, Gianni Infantino.
Este foi o primeiro teste que o Azteca precisava superar no caminho para a Copa do Mundo. Sabemos que o playoff intercontinental, que definirá as últimas vagas para o Mundial, será realizado em Guadalajara e Monterrey, onde Infantino esteve na semana passada, e esses estádios aparentemente foram aprovados.
Eu não diria que o Azteca falhou, mas houve uma notícia trágica: um torcedor, supostamente sob efeito de álcool, morreu após cair de uma área de camarotes no que agora é chamado de Estadio Banorte.
Além da partida, a estreia de Álvaro Fidalgo, o retorno de Guillermo Ochoa — embora não tenha jogado —, a consolidação de Tala Rangel como goleiro titular e os minutos dados a “La Hormiga” Armando González, uma das promessas mais brilhantes do México e aplaudido por todo o estádio, tudo isso ficou ofuscado.
Os torcedores queriam vê-lo em campo e cantaram seu nome durante toda a partida, mas a empolgação não se transformou em gols e acabou sendo marcada pela tragédia.
Assim, o Azteca inicia sua nova era com o pé esquerdo. Além disso, muitos torcedores reclamaram da organização, já que alguns ainda não conseguiam entrar no estádio aos 15 ou 20 minutos do primeiro tempo. Eles manifestaram forte insatisfação e apontaram falhas logísticas das autoridades.
Muitos torcedores que pagaram caro por esta partida tiveram uma experiência ruim. O que deveria ser uma celebração acabou marcado pela má organização, pela morte de um torcedor e pelo fraco desempenho da equipe sob o comando de Javier Aguirre.
Agora, a seleção mexicana viajará a Chicago para enfrentar a Bélgica, embalada pela vitória por 5 a 2 sobre os Estados Unidos, o que a torna uma adversária bem mais difícil do que Portugal, que não contou com Cristiano Ronaldo por lesão.
Essa também foi uma das maiores decepções para os torcedores mexicanos. Devido à revenda de ingressos — algo com que todos estamos familiarizados — muitos compraram entradas por preços extremamente altos. A revenda é ilegal no México, mas, na prática, funciona como um negócio.
Há algumas semanas, foi confirmado que Cristiano Ronaldo não viajaria para a Cidade do México, e os preços dos ingressos despencaram. No entanto, muitos já os haviam comprado por 18 mil a 20 mil pesos (cerca de US$ 1.000), o que gerou ainda mais frustração.
No regresso à reabertura agridoce, o México viajará neste domingo a Chicago para se preparar para a partida no Soldier Field, que encerrará esta janela internacional da FIFA.
Depois disso, haverá mais três amistosos contra Sérvia, Austrália e Gana em maio — os últimos testes de Javier Aguirre antes da estreia contra a África do Sul.
O problema é que esta seleção mexicana ainda não encontrou sua identidade. Continua com dificuldades para marcar e não consegue criar chances para Raúl Jiménez finalizar.
Ontem, Aguirre apostou em Roberto Alvarado e Brian Gutiérrez, ex-Chicago Fire da MLS, mas as chances no ataque foram praticamente inexistentes.
A poucos meses da Copa do Mundo, o treinador tem motivos para se preocupar: a equipe não funciona, vários jogadores-chave estão lesionados e muitos podem não chegar em boa forma.
Tomara que eles possam se recuperar... pelo bem da seleção mexicana.